Projeto Vá Para Cuba: O relato da viagem mais incrível que já fiz até agora

Capitólio e os carros antigos em Havana. Foto: Talita Marchao




Conhecer Cuba antes da queda do embargo imposto pelos EUA era um sonho muito antigo e a viagem que planejei por mais tempo. Tentei ir em 2014, em 2015 e nada deu certo. Finalmente, em 2016, eu fui! E acredite: por mais que eu tenha planejado o passeio por dois anos, deu muita coisa errada. E por minha incompetência.

A primeira coisa que se deve fazer é deixar o preconceito em casa. Não importa a sua posição política, é preciso ir de coração aberto, sem qualquer julgamento. Ninguém vai revistar sua mala no aeroporto, te interrogar ou verificar se você está traficando sabonete. Aliás, não falta sabonete e papel higiênico. E você vai comer bem, beber bem, mesmo que existam poucas opções de marcas no mercado (água, por exemplo, só era vendida a da marca Ciego Montero, que também fabricava os refrigerantes).

O Henrique e a Leo, minha família cubana
O Henrique e a Leo, minha “família” cubana

É um país com pessoas incríveis. Batalhadoras, sofridas e muito, muito hospitaleiras. Em Havana, escolhi a Casa Colonial La Terraza (a casa tem esse nome por causa do terraço super legal onde é servido o café, que é cobrado à parte, mas é a parte mais gostosa do seu dia (juro, é farto, delicioso e rende excelentes conversas). A casa é da Nora, mas ela não estava lá na minha estada. Quem preparava o café era a Lirita, uma cubana super bacana que me dava o maior carinho (e o meu melhor presente lá, a moeda de 3 CUP com a cara do Che, é coisa rara!).

Fiquei em Centro Havana. Me pareceu uma escolha certeira entre o Vedado e Havana Velha. A questão é que eu quase não fui para o Vedado, então era um rolê todo dia até a parte antiga da cidade. Em Centro Havana era mais barato comer, beber e viver, mas a parte turística toda está em Havana Velha.

O lance de Havana é simplesmente não planejar. Você pensa em como quer que o dia seja e tenta. Tudo sempre vai sair de forma diferente. Havana foi a primeira cidade em que me permiti caminhar só observando, sem a pressão de fotografar, preocupar-se com a posição do sol, da sombra. Comprei um pote de meio litro de sorvete e saí caminhando do Paseo de Martí até a metade do Malecón, me permitindo uma parada longa para sentar e observar o farol e o pôr do sol.

O machismo é assustador. Nas ruas, o que se ouve basicamente é “táxi?”, “muy linda” e “acompanhante?”. No começo, ouvia tudo quietinha, sem rebater. Nos últimos dias, já me sentindo mais segura de andar sozinha por Havana, saía rebatendo (mesmo sabendo que não teria o menor impacto, eles simplesmente não se importam se você está ofendida).

Quando você fica em uma casa particular (e não fique em hotel, escolha sempre uma casa. A experiência é sensacional), a própria casa manda alguém para te buscar no aeroporto. Você pagará o táxi, não se engane, mas é a forma que eles encontrarem de você não contratar um táxi lá e ser levado para outra casa e eles perderem a reserva (afinal, você faz a reserva por e-mail e fica tudo no boca a boca, sem sinal em dinheiro). Quem me buscou foi o Henrique, marido da Leo e com quem tive conversas acompanhadas de cerveja e bolacha no terraço durante a noite. Falamos da vida em Cuba, do porto de Mariel, de novelas, dos paladares, de dicas de passeios, do assédio dos acompanhantes, de tanta coisa!

A Leo foi a minha maior e melhor surpresa. Professora de idiomas, incluindo inglês e russo (!!), ela estudou na União Soviética na juventude (em uma universidade em Kiev, na Ucrânia) e viu o fim da URSS in loco. E foi dela que tive as melhores observações e palpites sobre o futuro da ilha. Ela vê muitas semelhanças em Cuba hoje com o processo que ocorreu na década de 80 na URSS. Ela falou ainda sobre os cubanos que vivem nos EUA (ela tem parentes lá) e como eles desprezam tudo o que viveram na ilha, incluindo o próprio passado e a família que permanece em Cuba até hoje.

Che e Cienfuegos na Praça da Revolução! Foto: Talita Marchao

Leo me deu almoço (grátis, veja bem, sem querer nada em troca) assim que descobriu que eu tinha viajado mais de 14 horas sem café da manhã e almoço (só com gororoba de avião). E me ofereceu a janta na última noite. Era carne de pavão (sim! Parece carne moída de vaca) com mandioca cozida e estava delicioso.

É claro que nem tudo foi florido por lá. Em Trinidad, fiquei na casa de um cubano apaixonado por Hugo Chávez e pela Venezuela, homofóbico e que dizia que os cubanos vivem e comem como animais. Aquilo me deixou com raiva. Ele ainda me chamou um táxi para Havana que chegou atrasado em 1h (e que não tinha espaço para a minha mala. Mas pelo menos o motorista é bacana). Aliás, taxistas por lá também são esta raça maldita que não respeita o cliente (acho que é assim em qualquer parte do mundo).

O maior dos perrengues e a polícia cubana

Em Cienfuegos, perdi o ônibus para Trinidad (ele saiu mais cedo!!). Horário é uma coisa que não é respeitada por lá e eu sabia disso. Bobeei. Lá, tentei pedir que um taxista me ajudasse me levando até a cidade vizinha (um percurso de 80km mais ou menos). Normalmente, uma viagem dessa compartilhada sairia por 6-8 CUC. Queriam me cobrar 30 CUC (afinal eu era a turista otária). Caí literalmente no choro até conseguir um senhor que topou me levar (e a um outro cubano) por 12 CUC cada. Só que ele não tinha permissão para levar estrangeiros. Resultado: quando fomos parados pela polícia, fingi que estava dormindo bêbada no carro deitadinha no ombro do motorista. Ele tremia de medo, eu tremia de medo. Passamos depois que ele disse que eu estava “borracha como un perro” (que seria o “bêbada para caralho” aqui). Esse meu “namorado cubano” era o Lázaro. Demos muitas gargalhadas depois disso até a casa em que eu estava (e ele ganhou naquela viagem parte do salário de um mês).

Um salário em Cuba sai perto dos 30 CUC. A corrida de táxi até o aeroporto sai 30 CUC. Deu para entender o motivo pelo qual todo mundo quer trabalhar com turismo?

 

 

Quer saber mais sobre Trinidad? Contei um pouco neste post
E Santa Clara? Saiba como é a visita pela cidade famosa por Che Guevara
Planejando sua viagem para Cuba? Todas as dicas estão aqui

Dicas de como circular em Havana? Esse mapa mostra um pouco dos lugares por onde passei!

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